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João Carlos Martins: “Bach é Pelé, Beethoven é Maradona, mas os dois são gênios”

João Carlos Martins: “Bach é Pelé, Beethoven é Maradona, mas os dois são gênios”
Por Andreh Ponttez Gomez

O programa Mariana Godoy Entrevista desta sexta-feira recebeu a cantora Alice Caymmi e o maestro João Carlos Martins, que iniciou sua participação ao piano, apresentando a canção “Thank You”, do jazzista Dave Brubeck.
A atriz Fernanda Montenegro foi uma das estrelas que homenageou o músico na contracapa do livro “Maestro – A Volta Por Cima de João Carlos Martins”, do jornalista Ricardo Carvalho, e o músico relembrou o início da amizade com a artista: “Eu não conhecia a Fernanda, nós dois nos conhecemos no palco”.  Ele recordou que a convidou para uma celebração, uma homenagem pelos 40 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado durante da Ditadura Militar Brasileira. Ao ver uma foto do encontro, João Carlos Martins contou: “Foi nesse momento que nós nos conhecemos, nós dois choramos e ela aceitou o convite desde que fosse um movimento suprapartidário. Ela veio e fez um depoimento fantástico escrito pela Miriam Leitão e depois eu realizei o concerto”.
O maestro disse que convidou a atriz para um concerto no Rio de Janeiro, sem ter a certeza de que ela se lembraria dele. Ele conta que Fernanda retornou a ligação que ele havia feito e, sem reconhecer a voz da atriz, João Carlos Martins quase desligou o telefone sem falar com ela porque estava “ocupado”.
A ligação do músico com a arte é óbvia e ele citou uma frase que atribui ao maestro e compositor Heitor Villa-Lobos para descrever a importância do tema: “Villa Lobos dizia o seguinte: não é um público inculto que vai julgar as artes, são as artes que mostram a cultura de um povo”.  Ele reconheceu que os artistas brasileiros são poucos em um universo de mais de 200 milhões de habitantes e conclui: “Quanto mais unida a classe dentro das artes plásticas, da literatura, da música, melhor para um país, para uma nação”.
João Carlos Martins opinou sobre a importância da existência de um ministério da Cultura e lembrou o papel do mecenato – patrocínio às artes feito por pessoas com ótima condição financeira – na difusão da cultura através dos séculos.  “Quanto mais nós tivermos mecenato e incentivo à cultura em nosso país, nós seremos um país mais digno”, finalizou o maestro.
Para o músico, o investimento em arte recupera as pessoas. Para confirmar sua teoria, ele citou seu projeto social feito em parceria com a Fundação Casa e recorda o caso de um garoto que preferiu permanecer mais alguns dias preso apenas para agradecê-lo e ainda cita o conteúdo de uma carta deixada pelos meninos da instituição que, segundo ele, dizia: “Feliz Natal, tio maestro, a música venceu o crime”.
João Carlos Martins falou sobre a importância dos concertos na periferia e descreveu a emoção de crianças que nunca tiveram a oportunidade de ouvir música ao ouvirem uma orquestra pela primeira vez. O maestro rege uma orquestra com cerca de 65 músicos e leva, em média, 35 deles às apresentações nas regiões mais carentes do país.
Apesar de gostar de dizer que o concerto mais importante é sempre o que está por vir, João Carlos Martins elegeu o mais marcante, que ocorreu em uma famosa casa de espetáculos de Nova Iorque: “O mais importante foi quando eu voltava ao Carnegie Hall, desta vez não como pianista, mas como maestro pela primeira vez”. Ele recordou que anunciou, no programa do apresentador Fausto Silva, que faria essa apresentação e dois brasileiros que viram a chamada foram ao espetáculo e levaram bandeiras do país. O maestro disse que ver as bandeiras do Brasil quando executava o hino nacional foi uma das grandes emoções de sua vida: “Foi um momento da minha vida em que agradeci a Deus por continuar na música e, antes de tudo, por ser brasileiro”.
Questionado sobre a emoção de tocar nas Paralimpíadas, João Carlos Martins citou outra lenda da música: “O Frank Sinatra diz que a maior emoção da vida dele foi entrar no Maracanã”. Ele ainda brincou sobre a emocionante execução do hino nacional para o estádio lotado: “Eu brinco que antigamente fazia 21 notas por segundo e agora em cada 21 segundos eu faço uma”. Ele completou: “Foi profundamente emocionante”.
“Outra grande emoção, fora palco, foi realmente no dia em que eu entro na avenida e 30 mil pessoas estão cantando a história da minha vida na Vai-Vai”, afirmou o maestro. Ao relembrar o título da escola da Bela Vista, ele atribuiu a conquista a uma pessoa: “Eu não tinha aceitado ser o enredo, aí eu encontrei um amigo meu, chamado Antonio Zimmerle, que chegou pra mim e falou: volte lá e aceite, porque Carnaval precisa de emoção. E aí eu me reuni e falei ‘rumo ao décimo quarto campeonato’ à diretoria”.  Mesmo em horário considerado “ruim” pela escola, o desfile foi comovente, arrebatou público e jurados e a maior vencedora do Carnaval paulistano conquistou mais um campeonato.
O maestro comentou a possível retirada da educação artística do currículo obrigatório do ensino médio e, mais uma vez, usou as citações de uma personalidade para mostrar a importância do tema. João Carlos Martins revisita o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, que teria, ao fim da Segunda Guerra Mundial, solicitado o corte de investimentos em todas as áreas, exceto nas artes pois, segundo ele, “as artes expressam a cultura de um povo”. O maestro, entretanto, preferiu não criticar ou elogiar as ações propostas pelo governo por não conhecer as alterações com profundidade. Ele, em contrapartida, revelou como divide as crianças nos projetos que coordena e explicou que encontra alguns diamantes a serem lapidados, citando alguns dos nomes que já descobriu. ‘Eu tenho dezenas de diamantes, mas não é fácil de encontrar’, lamentou.
Para finalizar o tema, ele enfatizou: “Eu não sei o que é positivo e o que não é positivo na nova lei, mas a única coisa que eu digo é o seguinte: um país onde as artes não sejam preservadas passa a ser um país pequeno”.
João Carlos Martins terá a sua vida contada em um filme “romanceado” e será vivido pelo ator Alexandre Nero. Ele elogiou Nero e contou histórias divertidas dos bastidores.
Em um momento de descontração, João Carlos Martins explicou a Mariana Godoy como usa a batuta para reger uma orquestra e brincou: “O primeiro segredo é a ‘fungada’. Quando você faz isso, todo mundo respira junto”. Ele explicou que não é preciso se dirigir aos músicos, pois todos já estão perfeitamente ensaiados nos concertos: “O concerto é tudo que se combinou no ensaio, com exceção das coisas que dão erradas”. Ele contou que a confiança é a base da relação entre regente e músicos e disse que não é preciso apontar a batuta para que o músico saiba a hora de entrar: “Se você fizer isso parece que você está ofendendo o músico, agora se você percebe que ele olhou para você com uma certa insegurança, com delicadeza você faz um gesto”.
Além do maestro, a cantora Alice Caymmi, neta do lendário Dorival Caymmi, também foi convidada do programa e revelou: “É um sonho meu cantar com orquestra e ter um maestro”. João Carlos Martins confidencia à jovem: “Seu avô me emocionou”. O maestro se lembrou de tê-lo visto num programa de TV dos EUA cantando “Rosa Morena” e elogiou: “Eu comecei a chorar de emoção quando eu vi seu avô cantando”.
A cantora apresenta a canção Iansã, de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Ao final da apresentação, o maestro brincou: “Vozeirão, pena que eu não te conheci antes”.
Alice Caymmi revelou a emoção de pisar em um estúdio pela primeira vez: “Eu tinha doze anos e foi o dia mais feliz pra mim, nessa hora eu percebi que eu queria fazer isso”. A artista apareceu em uma foto no colo de Tom Jobim e contou que a mãe ouvia e cantava músicas do artista enquanto estava grávida dela: “Eu costumo dizer que ouvi Tom Jobim, o repertório inteiro, antes de ouvir Dorival Caymmi”. Com a participação do maestro ao piano, a cantora improvisou “Eu Sei Que Vou Te Amar”.
O tema voltou a ser o longa que conta a trajetória do maestro e ele observou: “O filme, finalmente, é a realidade da minha vida”. João Carlos Martins descreveu uma das cenas e, com base nela, falou sobre seu perfeccionismo: “Eu acordo todos os dias às cinco e meia da manhã e ando três horas memorizando as músicas que eu vou reger. Às vezes tenho que decorar cinco mil páginas em um ano”.
O maestro falou sobre os concertos em que apresenta temas de jogos olímpicos e explica como é feita a triagem das composições que são executadas nesses espetáculos. Ele ainda divulgou um momento especial por que passará: “No final do ano eu vou reger, pela primeira vez, um coral de crianças refugiadas no Brasil, um concerto de Natal”.
João Carlos Martins falou também sobre outra paixão, a equipe paulista de futebol da Portuguesa de Desportos, que passa por um momento difícil. Rebaixada à série D do Campeonato Brasileiro e prestes a ter parte do Canindé leiloada, a equipe enfrenta a pior crise de sua história. O maestro recordou momentos emocionantes do clube, especialmente da homenagem que recebeu dos atletas quando a equipe escapou do rebaixamento. O músico isenta o Fluminense de um possível esquema para o rebaixamento da “Lusa” em 2013 e citou que por um “ato de corrupção interna a Portuguesa foi rebaixada”. Ele afirmou que daquele dia em diante não pisou mais no Canindé. Apesar disso tudo, o maestro se mostrou otimista: “A Portuguesa vai renascer, eu renasci tantas vezes na minha vida”.
Durante a entrevista, o maestro contou que fez tudo para recuperar o movimento da mão direita: procurou médicos, a igreja, um pai de santo. E recordou:  “Quando tinha 28 anos e tive o primeiro acidente pensei até em me matar, mas você tem que tratar a diversidade, uma deficiência física, com humor”. Para ilustrar isso, ele fez alusão à algumas palestras que proferiu junto ao multi medalhista Daniel Dias, que, segundo o maestro, abusa do humor para lidar com suas limitações. Com isso, o músico conclui: “É melhor tratar sempre com a trajetória da esperança na vida, nunca pra que as pessoas tenham pena de você”.
Em um momento “show” Alice Caymmi e o maestro João Carlos Martins se alternaram em apresentações vigorosas. Primeiramente, a cantora mostrou o alcance da voz poderosa cantando, à capela, “Meu Mundo Caiu”, imortalizada na voz de Maysa. Na sequência, o maestro apresenta uma peça de Mozart. Para finalizar esse momento, Alice apresenta “Meu Recado”, música que será tema de novela.
Questionada se artista tem que sofrer para compor, a cantora explicou: “Que pergunta… Acaba sofrendo porque é artista, porque é uma sensibilidade, uma consciência das coisas que não tem como passar alegrinho. Não necessariamente amor, não necessariamente luto, mas todo tipo de dor existe dentro do artista”.
Alice Caymmi falou sobre suas influências musicais e explicou como foi buscar, nos anos da década de 1980, “Sou Rebelde”, que era cantada por Lílian. Ela ainda dá uma ‘palhinha’ da canção.
A artista relembrou o avô famoso e contou um pouco de suas memórias: “O que eu mais gostava dele era como ele contava as histórias”. Em contrapartida, ela admitiu: “Eu odeio nostalgia”. E completou: “Saudosismo vem de pessoas que não conviveram com essas pessoas que fundaram a música popular brasileira, porque o que eles mais querem é que a gente ande e olhe pra frente”.
Para finalizar o programa, João Carlos Martins esclareceu a questão de um amigo, Luiz Tejon, que perguntou quem é o Pelé da música: Bach ou Beethoven. Bastante categórico, o maestro opinou: “Bach é o Pelé, Beethoven é o Maradona, mas os dois são gênios”. O maestro encerra o Mariana Godoy Entrevista com música.

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Andreh Ponttez Gomez, é ator, blogueiro e jornalista por vocação. Participou de mais de 300 programas de TV, nas principais emissoras do país. É Youtuber, responsável pelo canal Alvorada do Brasil.

Anddreh Ponttez

Anddreh Ponttez é ator, jornalista por vocação, escreve sobre famosos e televisão desde 2011.Escreveu para diversos veículos de comunicação e hoje comanda o site Coluna da TV.Em 2017 estreou como colunista de TV e famosos dos programas A Tarde é Show e do Programa Lucimara Parisi, na Rede Brasil.

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