Educação que cura: Documentário “Raízes Ancestrais” leva a história da fé africana para as salas de aula

Iniciativa em Itaúna (MG) exibe filme sobre cultura afro-brasileira para estudantes da rede municipal. Para Pai Olavo, Primeiro Òlùwò Lísà do Brasil, a escola é o único lugar capaz de desconstruir o medo e o preconceito religioso.

As escolas municipais de Itaúna estão prestes a transformar suas salas de aula em espaços de reconexão histórica. Nos próximos dias, a rede de ensino recebe a exibição do documentário “Raízes Ancestrais”, uma obra viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc que mergulha na espiritualidade, nos símbolos e na resistência das religiões de matriz africana. Mas, muito além de um evento cultural, a iniciativa toca em um ponto nevrálgico da sociedade brasileira: a necessidade urgente de combater a intolerância religiosa através da educação.

O documentário, produzido por Matheus Tarabal, percorre a trajetória da fé negra desde o continente africano até o interior do Brasil, mostrando como o sincretismo e a oralidade moldaram a nossa identidade. Para Tarabal, a obra é “um chamado para que cada escola se torne um espaço de respeito à diversidade”, provocando reflexões sobre racismo religioso e brasilidade.

“O preconceito é filho da ignorância”, diz Sacerdote
Para comentar a importância pedagógica e espiritual de levar esse debate para crianças e adolescentes, ouvimos Pai Olavo, sacerdote e primeiro Òlùwò Lísà coroado no Brasil. Para a liderança religiosa, iniciativas como o “Raízes Ancestrais” funcionam como um “antídoto” social.

“Nenhuma criança nasce intolerante. O preconceito é algo que se aprende, infelizmente. Mas se o preconceito é ensinado, o respeito também pode, e deve, ser”, afirma Pai Olavo.

Segundo o Òlùwò Lísà, o ambiente escolar é o solo fértil onde se pode desmistificar a visão distorcida que muitas vezes recai sobre as religiões de matriz africana. “Por décadas, nossas divindades, nossos Orixás e nossa ancestralidade foram demonizados por puro desconhecimento. Quando um documentário entra na escola e mostra que o Axé é cultura, é história, é arte e é amor, você tira o ‘monstro’ do armário. A criança passa a entender que o tambor que toca no terreiro é o mesmo que deu origem ao samba que ela gosta”, explica.

O documentário reúne entrevistas com líderes religiosos e historiadores, oferecendo uma visão plural que dialoga diretamente com a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Contudo, a aplicação prática dessa lei ainda enfrenta barreiras.

Pai Olavo reforça que a presença de materiais audiovisuais acessíveis, como o proposto pelo produtor Matheus Tarabal, facilita o trabalho dos professores. “O sagrado africano é, antes de tudo, uma visão de mundo baseada na natureza e na comunidade. Ensinar isso na escola não é doutrinar religiosamente ninguém, é ensinar a história do Brasil. É mostrar que a nossa identidade foi forjada também pela sabedoria dos Pretos Velhos, pela força dos Orixás e pela resistência do povo negro”, pontua o sacerdote.

Um convite ao diálogo
O projeto em Itaúna prevê rodas de conversa e debates após as exibições. Para Pai Olavo, esse é o momento crucial: “Quando a gente senta para conversar, a gente humaniza o outro. Que ‘Raízes Ancestrais’ seja semente. Que os alunos saiam dessas sessões não apenas conhecendo mais sobre a África, mas entendendo que respeitar a fé do colega é o primeiro passo para uma cidadania plena e uma espiritualidade sadia”, finaliza o Òlùwò Lísà.

A exibição do documentário segue cronograma nas escolas municipais, reforçando o compromisso da educação com a valorização das diferenças e o fortalecimento da identidade cultural brasileira.

Anddreh Ponttez

Anddreh Ponttez é jornalista, atuou em diversos veículos de comunicação. É colunista de TV e famosos dos programas de Nani Venâncio e Lucimara Parisi na Rede Brasil de Televisão. Instagram:@anddrehponttez

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